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A jovem guarda é uma brasa uai !

A mineira Wanderléa, ao lado de Roberto Carlos

Foi num domingo de setembro de 1965, às 16h30, que os então jovens Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa estrearam como apresentadores na TV Record. Antes de completar seis meses, o programa gravado em São Paulo teve que migrar do Teatro Paramount para um local bem maior, o Cinema Universo – que tinha capacidade para quase 5.000 pessoas. A estreia no novo espaço foi na comemoração do aniversário de Roberto Carlos. Nos arredores da avenida Celso Garcia, palco daquela apresentação, os fãs se desesperavam para ver o novo ídolo, nem que fosse de relance, aos berros de “Ei, ei, ei, Roberto é nosso Rei” e “Asa, asa, asa, o Roberto é uma brasa”. Estava consolidado o sucesso popular do programa “Jovem Guarda”, que fundou as bases do primeiro movimento do rock nacional e marcou o início do estilo musical que levou seu nome. “Jovem Guarda” era transmitido ao vivo para a capital paulista, e em videotape chegava ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife.

A capital mineira, que recebe nos próximos dias dois de seus principais expoentes (Wanderléa faz show na quinta, 19, e Roberto Carlos, no sábado, 28 – leia mais em texto nesta página), não é citada com ênfase nas retrospectivas do gênero que este ano completa 50 anos. Mas a cidade teve um papel significativo. Belo Horizonte não só foi berço de ídolos da Jovem Guarda, como também foi fundamental para furar os bloqueios que o preconceito contra o rock’n’roll impunha sobre os artistas da época e inaugurar uma nova fase de irreverência e subversão para a moderna juventude da época.

De BH saíram Martinha, Márcio Greyck e Eduardo Araújo – sem contar que de Governador Valadares veio Wanderléa, e de Mariana, Sylvinha. A cidade tinha ainda uma versão própria do programa “Jovem Guarda”, o “Brasa 4”, apresentado por Dirceu Pereira e transmitido pela TV Itacolomi, um dos únicos dedicados inteiramente ao rock no Brasil.

Juventude transviada

Eduardo Araújo e Sylvinha

“Nós éramos os garotos que todo pai abominava”, lembra Eduardo Araújo, 72, que clama ter sido o primeiro mineiro a ter gravado um disco de rock – “O Garoto do Rock”, lançado pela Phillips em 1961. “Eu fui um dos pioneiríssimos do gênero em Belo Horizonte. Fiquei famoso na cidade por causa da lambreta e do violão nas costas. Nós nos reuníamos no Bar da Savassi, que era ali numa esquina da Bias Fortes, ou na praça Raul Soares, e o pessoal chamava a gente de ‘juventude transviada’”, lembra o belo-horizontino, que em 1958 já cantava suas próprias composições e versões de Elvis Presley e Little Richard acompanhado por um grupo de rock, “The Playboys”.

“Minha formação musical veio de Luiz Gonzaga, mas quando Bill Haley e Seus Cometas vieram tocar aqui no lugar que hoje é o Minascentro (à época sede da Secretaria de Saúde do Estado), em 1958, eu resolvi abraçar esse ritmo alucinante. Esse show, inclusive, era proibido para menores, mas eu dei um jeito e passei pelo telhado. E foi aí então começou esse movimento do rock’n’roll em BH, que junto com São Paulo e Rio quebrou os tabus e os bloqueios da mídia que existiam”, recorda Eduardo, que recebeu de Chacrinha o apelido de “O Bom”, em virtude do hit homônimo que ele compôs ao lado de Carlos Imperial, padrinho de Roberto e tantos outros.

“Era muito difícil fazer show, mas aí o Imperial montou o Clube do Rock, que levava a gente pra fazer apresentações em circos, clubes e cinemas. Minas Tênis, Cine Brasil e Palladium era onde a gente sempre tocava em 1962”. Sobre esses shows, reza uma lenda contada pelo radialista Elmar Tocafundo (1940-2001), divulgador da gravadora CBS em Belo Horizonte, que um Roberto Carlos ainda anônimo foi escalado para fazer uma apresentação em um circo instalado no bairro São Paulo (região Norte da capital). O público foi composto por duas pessoas: Elmar e o proprietário do circo.

Amigo de Roberto desde que se mudara para o Rio, em 1960 (aos 16 anos), Eduardo revela que o capixaba era, desde o princípio, seu melhor marqueteiro. “A primeira coisa que o Roberto queria saber era o telefone das fãs. Sedutor, ligava para elas, mas estava interessado em sugerir que elas telefonassem para as rádios e pedissem suas músicas. Roberto sempre foi um ‘catitu’, aquele cara que onde tem uma brecha, entra”, define o cantor e compositor, antes de se vangloriar por ter tido, com o programa “O Bom”, na TV Excelsior (de 1966 a 1968), audiência equiparada à de Roberto na Record. “Eu fazia sucesso porque meu programa era rock’n’roll, passava antes de “A Muralha” (novela de maior repercussão da época) e porque eu tinha uma loirinha que era a paixão de toda a juventude desse Brasil: Sylvinha”, diz Eduardo, prometendo esmiuçar as histórias da época na autobiografia que vai lançar: “Pelos Caminhos do Rock”.

Carreata de calhambeque

Amigos - Elmar Tocafundo entrevista Roberto Carlos no estúdio da Guarani em 68

O radialista e apresentador Dirceu Pereira lembra com saudades da vinda do já então consagrado trio Ternurinha, Brasa e Tremendão a Belo Horizonte, em 1967. Ele e Elmar Tocafundo faziam parte da comitiva que recepcionou o grupo no aeroporto da Pampulha. A chegada deles, como tudo que envolvia a Jovem Guarda, foi viabilizada com patrocínio da loja Só Calças, conta Dirceu. “O Roberto veio lançar um produto da loja e a grande música do momento era ‘O Calhambeque’. Fizemos, então, um desfile de calhambeques vindo da Pampulha até o Minascentro. Acabou que o ginásio ficou pequeno e no outro dia não tinha mais uma calça na loja”, recorda.

O publicitário Everton Moscardini Naves, 60, estava no show e conta que “foi um negócio de louco”. A histeria que tomava conta do Brasil invadiu Belo Horizonte de vez. “No ginásio não dava pra escutar nada, porque a mulherada não parava de gritar. Elas puxavam cabelos e choravam o tempo inteiro. Baixava nelas uma coisa. Elas aproveitavam pra extravasar toda a repressão da época ali, eu acho. Do show mesmo só consegui ver o chapéu do Erasmo”, comenta Everton, ressaltando o quanto aquilo chacoalhou a cidade.

O então jovem Márcio Cherchi não sabe precisar se era este mesmo show no Minascentro o primeiro de Roberto, Wanderléa e Erasmo a que assistiu. Só se lembra de que Belo Horizonte parou em função do Rei. “Lá estava eu bem na frente daquela muvuca no ginásio. Só consegui entrar porque um porteiro que já me conhecia fingiu que não me viu”, conta. No mesmo ano, Cherchi adicionou Y e K a um sobrenome fictício para soar “mais gringo”, se tornou Márcio Greyck e largou de vez as serenatas – que fazia embaixo das janelas de amigos para “ganhar o troco das despesas básicas” – para lançar pela Polydor o compacto homônimo, com versões dos Beatles. O menino que antes passava as tardes livres no quarteirão entre a rua da Bahia e a avenida Augusto de Lima – em frente à Pep’s, loja que revendia todo tipo de produtos ligados à Jovem Guarda e portanto point da época –, em pouco tempo vendeu mais de 500 mil cópias com “Impossível Acreditar Que Perdi Você” (1970) e se tornou um dos nomes da Jovem Guarda.

Os dois Chacrinhas mineiros

Numa tarde que parecia normal, em 1962, Elmar Tocafundo (1940-2001), então programador das rádios Mineira e Guarani e divulgador da CBS (hoje Sony), foi chamado na portaria para atender ao chamado de um “rapaz da gravadora”. O garoto era Roberto Carlos, até então um ilustre desconhecido, que se apresentou e pediu ajuda para pagar as diárias do hotel Magestyc, na rua Espírito Santo, no centro de Belo Horizonte, onde estava hospedado. Elmar arranjou para que ele cantasse à noite numa brecha da programação musical e ali nasceu a amizade entre eles.

Ao lado do apresentador Dirceu Pereira, Elmar foi um dos responsáveis por lançar vários roqueiros e grupos belo-horizontinos. O também radialista Odair Pinto foi o primeiro a dedicar meia hora ao rock no rádio mineiro, mas a dupla Dirceu e Elmar tem importância comparada à de Chacrinha no posto de embaixadores da Jovem Guarda em Belo Horizonte.

“Desde o episódio do hotel, Roberto se apaixonou pelo meu pai. Quando em BH, ele sempre ia à minha casa”, conta Daisymar Tocafundo, uma das filhas de Elmar. “Eles eram amigos do tipo que tinham até código próprio pra bater na porta, jeito de assoviar. Era meu pai quem escolhia as roupas do show do Roberto na cidade”, detalha Daisymar sobre o pai que, logo depois do primeiro contato com Roberto, rodava por todas as rádios da cidade com discos do cantor embaixo do braço.

Influente e querido, Elmar fazia com que todo mundo tocasse o que pedia. “Ele fazia tudo com amor e tinha prazer em ver estourar a música de seus artistas. Ele foi o primeiro radialista a abraçar dessa maneira a Jovem Guarda em BH, tanto que o Márcio Greyck o comparou ao Chacrinha no Rio e Antônio Aguilar em São Palo. Sylvinha também o chamava de ‘pai dos artistas’”, afirma Daisymar, ao que Eduardo Araújo faz coro. “Dirceu Pereira e Elmar Tocafundo foram os caras que mais batalharam pela música jovem em Belo Horizonte”, afirma Eduardo, que enxerga o “Brasa 4”, programa nos moldes do “Jovem Guarda” que Dirceu apresentou na TV Itacolomi de 1968 a 1971, como um divisor de águas. “O ‘Brasa’ abriu de vez as portas e as cabeças do povo em BH”.

Everton Moscardini, 60, espectador assíduo dos programas com artistas da Jovem Guarda, conta que entre seus amigos era comum que fossem organizadas reuniões para acompanhar as apresentações na TV – o que não excluía a “rivalidade” entre “Brasa 4” e “Jovem Guarda”.

“Aquilo tudo na TV era maravilhoso. Era inovador, urbano, rock’n’roll. Tudo o que saía nas revistas à respeito da Jovem Guarda a gente colecionava. Quando veio o ‘Brasa 4’, só com músicos locais, então! Eu até fui em alguns, no Palácio do Rádio, onde é hoje o Teatro Alterosa. Lembro de ver o Greyck e a Martinha no programa – ela era uma gracinha. Minha irmã gritava com a TV quando o Roberto aparecia, mas tinha ódio do ‘Brasa 4’ por achar que ele imitava. Eu gostava dos dois, mas tinha carinho pelo ‘Brasa’ por ser coisa nossa”, diz.

“Em Minas tinha a chamada Tradicional Família Mineira, que não aceitava roupas curtas, dança, som das guitarras. A Jovem Guarda veio pra mostrar uma nova realidade, mudar a cabeça do público e quebrar os preconceitos e a timidez. Nosso ‘Brasa’ foi importante. E a gente copiava um pouco o ‘Jovem Guarda’ porque, como o Imperial dizia, ‘prefiro ser vaiado na minha mercedinha do que aplaudido no ônibus’”, conclui Dirceu.

A descoberta de Martinha


Martinha foi um dos nomes mais conhecidos do movimento

Foi num encontro às 3h da madrugada em uma casa na rua Cláudio Manoel, no bairro Serra, região centro-Sul de Belo Horizonte, que a sorte da então aspirante a cantora Martinha começou a mudar. Ninguém menos que Roberto Carlos foi vê-la cantar, após um show na capital. Duas versões dão conta da história que culminou com a ida do Rei à casa da garota, então com 19 anos. A belo-horizontina conta que foi “tão fácil que pareceu até obra do destino”. Sua mãe era amiga do radialista Elmar Tocafundo, que levou pessoalmente o líder da Jovem Guarda até sua casa. Daisymar Tocafundo, uma das filhas de Elmar, no entanto, conta que não foi tão simples assim.

“Dona Ruth saía atrás do meu pai pela cidade inteira insistindo para que ele levasse alguém para ouvir a Martinha. O papai até levou o Jerry Adriani uma vez, mas ele não viu muito futuro. Mas como homem de ouvido bom, meu pai viu no primeiro acorde que a Martinha ia vingar e disse que ia ajudá-la, até que ele levou o Roberto”, conta.

Certo é que foi por puro carinho à amizade com Elmar que Roberto aceitou ir à casa de uma desconhecida, de madrugada, depois de um show. Martinha cantou, ao violão, “A Garota do Baile”, do próprio Roberto, e agradou tanto ao Brasa que, três dias depois, ela já estava em São Paulo participando do “Jovem Guarda” com o apelido de “Queijinho de Minas”.

“As coisas estavam tão escritas, que até a data é significativa: foi dia 6 do 6 de 66. Foi inexplicável ver aquele ídolo sentado na minha casa, como se fosse igual a mim. O Roberto estava precisando de vozes femininas no programa e achou o meu tipo de timbre bem diferente e bonito. A Jovem Guarda nem era o meu segmento, eu era pianista, estudante de música clássica, mas à medida que o movimento foi tomando força em BH, eu me entreguei”, conta a cantora, que ficou famosa ao som de músicas como “Eu Daria a Minha Vida”.

Curiosidades da Jovem Guarda

Lênin - O nome da atração musical foi criado pelo publicitário Carlito Maia, inspirado em um trecho do discurso do líder revolucionário russo Lênin: “O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada”. Mas, no final, acabou batizando toda uma leva de cantores e bandas nacionais que incorporaram às suas composições elementos do rock’n’roll.

Minissaia - Além da música, a Jovem Guarda influenciou a linguagem e os padrões de comportamento da moçada. A minissaia, por exemplo, virou coqueluche depois de expor as pernas de Wanderléa.

Popular - Os bordões falados por Roberto e Erasmo eram repetidos por todos os fãs. No auge da sua popularidade, a Jovem Guarda chegou a mobilizar 3 milhões de espectadores só em São Paulo.

Para reviver o frisson
Quando uma caravana de desconhecidos rebeldes chegou ao bairro do Cordovil, no Rio de Janeiro, Wanderléa era uma jovem cantora, mas já de sucesso. Convidada pela gravadora CBS a assistir o show daqueles meninos, a mineira – que até então cantava o repertório sério e adulto das grandes cantoras do rádio – se encantou com a algazarra, a alegria e a irreverência da música que eles faziam. Roberto Carlos estava entre eles e ali mesmo os dois já entenderam que voltariam a se encontrar. Dito e feito.

Depois de fazer história juntos, como líderes da Jovem Guarda, Wanderléa e o Rei Roberto voltam a Belo Horizonte em shows separados. A Ternurinha traz ao Teatro Bradesco o espetáculo “Wanderléa... Maravilhosa”, que revisita o repertório do disco homônimo que lançou em 1972, e Roberto volta ao Mineirinho para mais um pout-pourri de hits.

Wanderléa
Teatro Bradesco do Centro Cultural do
Minas Tênis Clube (r. da Bahia, 2.244,
Lourdes, 3516-1360). Quinta (19), às 20h. Ingressos esgotados.

Roberto Carlos
Mineirinho (av. Antônio Abrahão Caram, 1.001, Pampulha, 3499-1171). Sábado (28), às 21h. R$ 120 (arquibancada, inteira), R$ 170 (Vip lateral), R$ 460 (Vip azul) e R$ 650 (camarote).

A jornalista Giselle Ferreira entrou em contato com nosso blog quando estava fazendo a matéria para o jornal, demos as informações via Facebook para ela. mas demoramos na resposta que citava fontes do ínicio da Jovem Guarda. Estamos re-publicando a materia feita pela Giselle Ferreira para o jornal O Tempo.





Fonte: O Tempo/Giselle Ferreira

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