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Ronnie Von soltou seu veneno contra Roberto Carlos e a Jovem Guarda

Em entrevista para o 'Jornal Bem Paraná' Ronnie Von soltou seu veneno contra Roberto Carlos e a Jovem Guarda.

Mas na nossa opinião isso tudo é uma forma de chamar atenção para  sua biografia que está sendo feita pelo jornalista Luiz Pimentel, onde o jornalista fala que: ""Acho que ele foi tão importante
  
quanto Roberto Carlos". Mas com certeza não é o que acham os milhares de fãs de Roberto Carlos, fãs que acompanham o Rei por mais de meio século, e que ainda hoje lotam suas apresentações e compram seus discos.


Leia a matéria completa abaixo

Ronnie Von: “Hoje faria tudo ao contrário” (foto: Divulgação)




Ele seria o avô da Tropicália, pai do psicodelismo, um revolucionário a dar dimensão e profundidade ao rock sessentista seguindo as lições do experimentalismo beatleniano dos anos 60, não fosse um detalhe: ninguém entendeu absolutamente nada. E pior: Ronnie Von não soube se explicar.

Uma das carreiras mais incompreendidas da música nacional, que sofreu com o desprezo de sua própria classe artística, volta a ganhar luz neste ano. Ao fazer 70 anos em 17 de julho, Ronaldo Lindenberg Von Schilgen Cintra Nogueira, ou Ronnie Von, deve ganhar de presente uma biografia, a sua biografia, que está sendo feita pelo jornalista Luiz Pimentel. "Acho que ele foi tão importante quanto Roberto Carlos. Ele nos apresentou outra coisa, nos permitiu sermos quem éramos", disse Rita Lee.

Ronnie tinha tudo para querer o trono de Roberto Carlos, se não fosse um porém: seu cérebro tinha vida própria. Ronnie não queria ser Roberto Carlos. Nada contra o rei, mas cantar baladas ingênuas em troca de uma exposição de sucesso estava fora de seus planos. Passou anos sem boa receptividade do pessoal da MPB ou da Jovem Guarda. A angústia de Ronnie Von começou no dia em que ele decidiu ser músico e só terminou no dia em que ele decidiu parar de cantar. Hoje ele é apresentador de TV.

O que foi pior para você no final daqueles anos 60? A ditadura ou a patrulha da MPB de esquerda, que já havia feito até passeata contra a guitarra elétrica?
Ronnie Von - Seguramente, a patrulha comportamental da MPB. Se você não escrevesse seguindo a cartilha deles, meu Deus, alienado era elogio. Você era um reacionário, um fascista. Eu achei que poderia fazer parte daquele movimento, na tentativa de consertar a problemática humana através de um viés esquerdizante, e de repente fui alijado disso tudo, simplesmente porque usava instrumentos elétricos como guitarra, baixo e teclados. Nunca vi uma bobagem maior.

Mas a ditadura também trouxe problemas a você?
Ronnie Von - Quando descobriram que eu tinha formação acadêmica, vieram em cima. Eu tive disco que foi censurado depois de lançado.

Havia uma guerra declarada entre a MPB de Chico Buarque, Edu Lobo, Elis, Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Vandré, chamados em um programa de Frente Única da MPB, e os artistas que participavam da Jovem Guarda. Mas você sugeria uma terceira via, uma música experimental que rompia com o iê-iê-iê que antecedeu a própria Tropicália. Ninguém entendeu isso?
Ronnie Von - Eu apanhei muito pesado. Não do pessoal da Jovem Guarda, que não entendia o que eu queria dizer, mas da chamada MPB. Quebraram meus discos publicamente em televisão, me chamaram de alienado mental. O ato de coragem nesta história veio por parte do Gilberto Gil, quando fez uma das coisas mais impecáveis que a música desse país já viu, que é o Domingo no Parque. Gil também apanhou por usar guitarra elétrica, mas quando mostrou o resultado, todo mundo teve que se calar, inclusive Elis Regina.

A Tropicália não foi fruto de uma semente que você havia plantado?
Ronnie Von - Eu havia feito algumas coisas bastante tempo antes, mas não a vi como sendo de minha paternidade. Pensei: os caras estão fazendo aquilo que eu estava pensando em fazer, mas que não tive apoio de absolutamente ninguém. Eu também não sabia dizer o que eu queria. Depois de Gil, parou tudo, ninguém mais falou contra a guitarra elétrica porque o baluarte da MPB, Gil, e Caetano, dois pilares, usaram guitarra, baixo, teclado. Aí a coisa se acalmou.

Você tentou se aproximar dos outros grupos?
Ronnie Von - Eu tentei uma aproximação com os radicais, mas não era aceito. Eu não consegui diálogo nem com a Jovem Guarda nem com a MPB.

O que diziam a você?
Ronnie Von - A assessoria do Roberto Carlos me dava coice, para dizer o mínimo, não me deixava nem chegar perto dele. E o pessoal da MPB, o grupo ortodoxo e radical, não me aceitava porque me julgava da Jovem Guarda. Foi uma coisa tão penosa... Hoje eu me sinto tão em paz em não cantar mais...

Ser de família rica foi um problema?
Ronnie Von - Na época em que comecei, era de muito bom tom ter uma origem miserável para chegar a algum sucesso. Só assim você tinha um suporte maior, autêntico. Os grandes homens precisam sair de uma favela. Isso é algo fascinante para nós humanos, comungamos desse pensamento. Eu tinha de esconder minha origem, esconder que minha família tinha recursos. Quando descobriram de onde eu tinha vindo, sofri o preconceito às avessas. Diziam que meu pai bancava meus gastos. Como? Minha família só faltou me expulsar de casa quando descobriu que eu era músico. As pessoas mais antigas e conservadoras do Rio de Janeiro, ao contrário do que todo mundo pensa aqui em São Paulo, vivem até hoje na corte. A cabeça delas está no século 19. Eu então ouvi barbaridades de algumas tias. "Onde foi que nós erramos?" "Esse menino vai jogar o nome da família na lama." Isso me deixava deprimido. Meu Deus, a escolha era minha. Fui morar na Praça Julio de Mesquita, no centro de São Paulo, sem dinheiro, louco para atravessar a São João e ir comer no Filé do Moraes. Eu ouvi no rádio alguém dizer: "Esse filhinho de papai está ocupando o lugar de quem precisa". Me chamavam de calcinha de veludo.

A música foi um grande drama, do início ao fim?
Ronnie Von - Só paulada. Paulada da Jovem Guarda, paulada da MPB, paulada da mídia impressa, paulada da família. Pessoas que eu lia e admirava, como Sérgio Porto, dizendo: "Não ouvi e não gostei". Foi uma das pessoas que mais me bateram na cara. Eu tive que aprender a deixar de gostar de pessoas que eu lia, que eram endeusadas por todo mundo, sábios. Poderiam ter a cabeça mais aberta.

Isso tudo acabou enterrando sua carreira antes da hora?
Ronnie Von - Eu resolvi parar de gravar em 1997, usando como argumento o seguinte: onde já se viu você ter que pagar para executarem uma música sua? Se a contribuição do artista é a cultura, você não tem que pagar para ele chegar às pessoas. Quando vi um amigo meu, apresentador de televisão, levando ao programa dele um músico terrível, filme de terror que não tinha o mínimo sentido em estar lá, fui falar com ele e ele disse: "Bate na sua boca, isso aí é um grande sucesso nacional". Eu disse: "Mas não faz sentido". E ele: "Olha, ele tem R$ 9,5 milhões por trás segurando a onda". Hoje, você tem que ter um investidor, senão você não faz sucesso.

Seu filho é músico, não?
Ronnie Von - Ele está indo embora do País, cansou de levar porta na cara. Eu fiz de tudo para esse menino não se meter nessa história, porque eu sabia do sofrimento. E eu não conheci ninguém melhor do que meu filho na faixa etária dele. Ele tem um talento absurdo, mas não faz sertanejo nem funk. Porta na cara o dia inteiro.

E o que está faltando?
Ronnie Von - Se o cara não tem investidor para pagar um escritório para administrar sua carreira, nada feito. Quanto custa para tocar na rádio tal? R$ 400 mil. Para ele, pediram R$ 5 milhões. Se fosse sertanejo, seria o dobro. Somos reféns hoje dessa raça, que empobrece a música, que não deixa que os talentos apareçam. Eu vi um cara dar uma casa em Miami e dois carros BMW para fazer um artista tocar nas rádios do País. Eu vi, ninguém me contou. O cara está muito famoso até hoje.

Você faria algo diferente do que fez no passado?
Ronnie Von - Eu faria tudo ao contrário. Teria feito aqueles discos psicodélicos, mas saberia mostrá-los melhor, convencer quem deveria ser convencido. Seria outra coisa. Eu fui induzido a continuar fazendo coisas com um viés romântico, que eu detesto.

Mas você não fez o que queria?
Ronnie Von - Eu fiz o que queria, mas não soube dizer o que deveria ser dito. Não soube mostrar qual era o caminho das pedras que eu via.

Ao dizer a seu filho que ele não deve ser músico, não está repetindo o que fizeram com você?
Ronnie Von - A história é irreversível, mas ela se repete. Ao saber que o Leo queria ser músico, eu disse a ele: "Por favor, meu filho, não faça isso com sua família, comigo, com você mesmo Esse ambiente é sórdido, o mais podre que existe". Ele disse: "Pai, mas você venceu nele. Você é meu ídolo". Aí meu pai, de 93 anos, lúcido, entrou na história: "Desculpe, mas vou me intrometer, eu tenho esse direito. Sou o seu pai e o pai dele duas vezes. Não cometa com o meu neto a imprudência que eu cometi com o senhor. Deixe ele ser aquilo que ele quer ser".

Link da matéria:http://www.bemparana.com.br/noticia/304828/vitima-do-radicalismo-ronnie-von-ve-o-passado

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